Não reproduzir essa foto sem permissão. Ok? Ok.

Rancho Carne
site pessoal de Daniel Galera
e-mail: ranchocarne arroba gmail.com


Oi. Procurando o Dentes Guardados em PDF? Clica aqui. Procurando o meu blog? Não existe mais desde abril de 2007. Biografia? Nasci em julho de 1979 em São Paulo, me criei e morei a maior parte da vida em Porto Alegre, passei outros três anos em São Paulo (2005 a 2008) e agora estou em Santa Catarina. Publiquei na internet de 1996 a 2001, com destaque para os três anos como colunista do mailzine Cardosonline (COL), e lancei meu primeiro livro em 2001 pelo extinto selo independente Livros do Mal, criado por mim, Daniel Pellizzari e Guilherme Pilla. Além de escrever prosa de ficção, traduzo autores de língua inglesa e de vez em quando publico resenhas e reportagens. Edito essa página no Bloco de Notas e gosto de usar a tag blink. À direita, citações de livros que estou lendo, direto do meu tumblr. Aí embaixo tem uns textos, informações sobre meus livros e outras cousas.


Novidades: 1) Meu novo romance, Cordilheira, está nas livrarias - e acaba de ganhar o Prêmio Machado de Assis de Romance, uma das categorias do Prêmio Literário Fundação Biblioteca Nacional; 2) Mãos de Cavalo será publicado na França e na Romênia em 2009; 3) Estou trabalhando numa graphic novel com o desenhista paulistano Rafael Coutinho. O título provisório é Cachalote e a meta de publicação é meados de 2009. O Rafa anda colocando uns esboços em seu blog.





Dia desses dei uma entrevista ao Fórum Virtual de Literatura e Teatro, uma publicação do PACC/UFRJ. Ia só lincar aqui, mas resolvi engordar um pouco esse Rancho e transcrevi o treco inteiro, até porque no meio do yadda yadda tem duas ou três coisas ali que sempre quis dizer e creio ter conseguido dizer com um mínimo de coerência.


Daniela Birman: Antes de receber o convite para participar da série Amores Expressos, você já tinha planejado o romance "Cordilheira". Gostaria de saber se a viagem para Buenos Aires e Ushuaia influenciou de modo decisivo seu processo de criação. O que a estada de um mês na Argentina trouxe de importante para o livro ou alterou sua idéia original?

Daniel Galera: Fui a Buenos Aires pela primeira vez na vida e 90% do meu romance se passa lá, além de ser povoado por personagens argentinos. Minha estadia na cidade foi, portanto, decisiva. Quando viajei, já tinha um esboço mental da idéia do romance, mas ela foi desenvolvida em Buenos Aires e nos meses seguintes, a partir de anotações e observações feitas na Argentina. A forma final que o romance assumiu depende muito da viagem. Declarações minhas de que a história do romance poderia se passar potencialmente em outras grandes cidades do mundo têm sido usadas por detratores do Amores Expressos para atacar o conceito do projeto, o que é uma besteira sem tamanho, uma distorção do que venho afirmando. Eu poderia ter situado a mesma trama básica em São Paulo ou Edimburgo, mas o resultado seria um livro muito diferente. Minha experiência em Buenos Aires, que foi marcada por uma ausência de estranheza cultural e por uma sensação forte de exílio, de distanciamento da vida regular, contaminou todo o romance e sobretudo a conduta de Anita, a protagonista.

Daniela Birman: Você explora em "Cordilheira" as fronteiras fluidas entre ficção e realidade, autor e personagem. O que o atraiu nesta temática, central em seu novo romance? Já experimentou coincidências surpreendentes entre vida e obra?

Daniel Galera: Dois fatores me levaram a explorar essa temática. O primeiro foi minha própria experiência como autor de três livros publicados. As expectativas, os julgamentos e as confusões dos leitores acerca dos componentes biográficos de um conto ou romance sempre me chamaram a atenção e por vezes me atingiram de forma negativa, desde que comecei a publicar. Já em 1999, na época do e-zine Cardosonline, no qual publiquei meus primeiros contos, o interesse por esse tema me fez escrever um conto chamado "Manual para atropelar cachorros", onde minha intenção era provocar o leitor a se perguntar até que ponto aquele texto supostamente ficcional seria autobiográfico. Na verdade, o conto era 90% fictício, mas aconteceu o que eu esperava: a maioria dos leitores suspeitou que fosse em grande parte autobiográfico, de modo que recebi dezenas de e-mails de gente interessada em esclarecer se eu de fato tinha saído de carro na madrugada atropelando cachorros. Naquela ocasião, descobri a ânsia do leitor contemporâneo por legitimar a ficção por meio de pontes entre o texto e a biografia do autor, biografia essa que é em grande parte imaginada por esses mesmos leitores com base na própria ficção que leram. É decerto um sintoma cultural do nosso tempo essa credulidade voraz do leitor pela dimensão biográfica da ficção, que o leva a imaginar coisas e fazer interpretações quase sempre equivocadas sobre o texto e o autor. É triste, por um lado, porque indica um declínio do valor intrínseco da fábula, da autonomia da imaginação, um mundo onde o modelo narrativo dominante é o do reality show - que não deixa de ser interessante em si, porém não deveria ser paradigma para tudo mais. Mas enfim, o interesse por esse tema só aumentou nos anos seguintes, com a publicação dos meus dois primeiros romances. Logo após a publicação do "Mãos de Cavalo", em 2006, eu estava justamente refletindo sobre isso quando comecei a ler "O negro dorso do tempo", do Javier Marias, um romance em que o autor explora de forma fascinante a transformação da vivência pessoal em ficção e a posterior influência da ficção na vida das pessoas reais e sobretudo na do próprio autor. Eu tinha experimentado isso na pele com "Até o dia em que o cão morreu", um livro muito pouco autobiográfico que pareceu vazar para a realidade depois de lançado, se refletindo na minha vida pessoal numa série de coincidências que até hoje não compreendo muito bem. Naquele momento, lendo o romance do Javier Marias, decidi que meu próximo livro tocaria nesse tema e envolveria alguma espécie de intriga literária na qual a fronteira entre a vida e a ficção dos personagens se borrasse de várias formas, intencionais ou não. Depois decidi jogar no meio disso alguns elementos metaficcionais, comentários irônicos sobre literatura, e a coisa foi se complicando. O resultado, a meu ver, é um romance que comenta e incorpora essas questões sem propor teses acabadas, exceto uma: a de que a interpretação que fazemos da nossa experiência, à qual damos o nome de "vida real", é também uma construção narrativa, não muito diferente da ficção.

Daniela Birman: A protagonista de "Cordilheira", a escritora Anita van der Goltz Vianna, rejeita radicalmente seu primeiro e único livro. Ela chega mesmo a não se reconhecer mais em suas páginas, como se ele tivesse sido escrito por outra pessoa. Você experimentou algo próximo deste estranhamento em relação a sua literatura?

Daniel Galera: Não, isso é coisa da Anita. Embora meus livros anteriores sejam produtos de um autor que deixei de ser, porque minha vida foi em frente e eu mudei muito, eu os reconheço como parte do que sou agora. Seria ingenuidade rejeitá-los como faz Anita. Mas eu queria que ela fosse uma espécie de anti-heroína literária numa época em que tanta gente aspira ao status de escritor. Ela consegue o mais difícil, se consagrar aos vinte e cinco anos com o primeiro romance, mas em seguida rejeita completamente o livro e a própria condição de escritora de literatura. De forma análoga, ela renega boa parte dos ideais de emancipação feminina cultivados por suas amigas e pelas pessoas de sua geração e classe social em geral em nome de algo considerado antiquado: quer ter um filho e tornar-se nada mais que mãe ou, nas palavras dela, "a mulher de um homem".

Daniela Birman: Você já escreveu, aliás, que a inspiração está relacionada à capacidade de estranhar a vida. Poderia falar um pouco mais sobre isso? Quais estranhamentos inspiraram "Cordilheira" ou outros livros seus?

Daniel Galera: Eu não saberia dissertar sobre isso de maneira objetiva, porque é uma sensação muito particular, uma interpretação bem subjetiva do caráter da inspiração. É o sentimento que tenho ao flagrar uma idéia inesperada tomando conta da minha imaginação: um dado novo, uma nova versão do que eu tomava como certo, e de repente um aspecto qualquer da vida que eu julgava conhecer se revela estranho, de uma forma que pode ser confortante ou assustadora. E elaborar essa idéia na cabeça e depois escrevê-la é o processo de me familiarizar com essa estranheza e comunicá-la aos leitores. Eu não saberia pegar um personagem ou cena do "Cordilheira" e associá-lo a um desses instantes de inspiração porque o livro pronto, sua trama, estilo e personagens, representa um estágio muito posterior à inspiração. Eu diria que a inspiração é o que me move a escrever um novo livro, mas dois ou três anos depois, com o texto pronto, ela não passa de um fantasma.

Daneila Birman: Sua personagem Anita se opõe fortemente à idealização da literatura. Após ter alcançado sucesso logo no seu livro de estréia, ela perde o interesse pela escrita e critica em seus amigos argentinos a seriedade excessiva com a qual eles encaram a literatura. Você percebe esta idealização na vida literária brasileira hoje? Isso o incomoda?

Daniel Galera: Percebo e me incomoda. Não gosto muito da literatura vista como essa entidade acima do bem e do mal, um prédio majestoso ao qual autores merecedores terão a honra de acrescentar um quarto ou, pior, no qual qualquer pessoa que digite algumas páginas e as chame de literatura poderá construir seu puxadinho. Não acredito na importância desse prédio, talvez nem mesmo em sua existência. Eu vejo a literatura como uma experiência que se renova em cada leitor e autor, a partir de uma necessidade. A literatura é uma grande cidade que se espalha, não um palácio que se ergue em direção ao céu. Autores, críticos e grupos literários que decretam sua auto-importância à sombra desse palácio fajuto me irritam, e leitores que julgam a literatura pelo prisma dessa idealização tola me irritam mais ainda. Não gosto de gente que fala em nome da literatura. Antipatizo imediatamente com quem julga ter autoridade para se manifestar por ela. "Porque a literatura busca isso", "A literatura é aquilo", "A literatura deve...", "A literatura precisa de..." Gosto de pessoas que falam de livros, de cenas emocionantes, de parágrafos que mudaram suas vidas, de frases que as fazem gargalhar ou cair em silêncio profundo sempre que são lembradas, de palavras maravilhosas, de figuras de linguagem que parecem conter verdades imensas que não podem ser expressas de nenhuma outra forma.

Daniela Birman: Foi difícil criar uma voz narrativa feminina?

Daniel Galera: Foi difícil no começo, porque eu estava pensando demais no assunto. Ao longo do processo, me dei conta de que uma voz feminina não era tão diferente de uma masculina, do ponto de vista literário, e que bastaria me colocar no lugar da minha personagem e aplicar nessa perspectiva o meu próprio estilo para chegar a uma voz feminina convincente o bastante. Digo "convicente o bastante" porque não é segredo para ninguém que o autor do romance é um homem, e querer dissimular isso seria uma cretinice. O resto é pesquisa, como para qualquer coisa que não se sabe por experiência própria. Google, Wikipedia, convivência, interrogatórios pessoais, outros livros.

Daniela Birman: Está trabalhando atualmente em algum novo livro? Poderia falar um pouco dos projetos nos quais está envolvido?

Daniel Galera: Estou escrevendo o roteiro de uma graphic novel em parceria com o desenhista Rafael Coutinho. É um projeto grande de história em quadrinhos, que poderá chegar a trezentas páginas. São seis narrativas paralelas, muitos personagens. Estou adorando, eu e o Rafael chegamos a uma unidade criativa que nos surpreendeu, nossas idéias se complementam e o traço dele em alguns casos parece reproduzir exatamente o que se passa na minha cabeça, dá medo. Estou confiante no resultado. Deve ficar pronta em meados de 2009. Já estou em fase de inspiração para um novo livro, mas não escrevi uma linha dele ainda. Estou forrando um caderninho com anotações. Devo começar a trabalhar nesse livro ano que vem.






Steve Rhodes / flickr.com

David Foster Wallace cometeu suicídio anteontem, dia 12 de setembro de 2008, aos 46 anos. Recebi essa notícia como se soubesse da morte de um amigo próximo. Em 2005, publiquei no meu finado blog um post inspirado pela leitura do extraordinário conto "Good Old Neon", da coletânea Oblivion - um dos vários textos dele em que o suicídio e o solipsismo surgem como temas importantes, monstros que só podem ser combatidos na batalha absurda que visa romper a prisão do indivíduo e estabelecer conexões profundas, verdadeiras, com os outros seres humanos. Eu o republico aqui temporariamente, como insignificante mas sincera retribuição ao que obtive de sua literatura. A bandana nunca se apagará.

O OUVIDO NA FECHADURA

Este é mais um paradoxo, que a maioria das impressões e pensamentos mais importantes na vida de uma pessoa são os que passam pela cabeça tão rápido que rápido não chega nem a ser a palavra exata, eles parecem ser tão diferentes ou alheios ao tempo normal e seqüencial do relógio que rege nossas vidas e possuem tão pouco em comum com o inglês meio linear, de uma- palavra- depois- da- outra, com o qual todos nos comunicamos que poderia levar uma vida inteira, fácil, só para expôr em detalhes um segundo do conteúdo de um clarão de pensamentos e conexões etc. - e apesar disso parece que continuamos tentando usar o inglês por aí (ou seja qual for a língua nativa usada em seu país, não precisa nem dizer) para tentar transmitir aos outros o que estamos pensando e descobrir o que eles estão pensando, quando bem no fundo todo mundo sabe que é uma piada e que faz tudo parte de uma encenação. [David Foster Wallace, “Good Old Neon”]

O trechinho acima faz parte de um dos melhores contos do David Foster Wallace que li até hoje, Good Old Neon, publicado em Oblivion. Claro que o trecho não dá conta da complexidade do conto, com seus três níveis narrativos diferentes e todos os requintes típicos do DFW, que poderiam ser taxados de exibicionismo se ele não fosse de fato um escritor brilhante que pode se dar ao luxo de fazer o que quiser. Uma das camadas do conto lida justamente com a desproporção entre o universo interior de cada indivíduo e os meios limitados que possuímos pra expressar o que se passa nesse universo, não somente pros outros mas também pra nós mesmos. A reflexão é conduzida por um personagem que se suicidou depois de perceber que estava condenado a ser uma fraude, pois não suporta a constatação de que todos seus atos desde os quatro anos de idade tiveram o objetivo de moldar uma imagem de felicidade e sucesso diante do olhar dos outros. As páginas finais são arrepiantes, inclusive porque o autor liga o limite da capacidade de comunicação do universo interior de qualquer ser humano com a incapacidade de expressão de um artista, como por exemplo um escritor, como por exemplo ele mesmo, e tudo se fecha com um clique perfeito, o clique de um conto magistral.

Quem já tentou escrever ou filmar ou desenhar ou compor alguma coisa certamente passou pela experiência de elaborar uma idéia imensa, complexa, perfeita em sua forma e suas interconexões, uma condensação abstrata de inúmeras opiniões e sentimentos, só pra sentir a quase total incapacidade de transformar aquela idéia abstrata em palavras, imagens, sons quando chega a hora de botar a mão na massa. Quando se sobrevive ao processo, mesmo o resultado bom é somente a ponta do iceberg da idéia original, e no máximo se pode ter a expectativa de que a obra resultante tenha a capacidade de apertar os botões certos nos leitores/ ouvintes/ espectadores para que, com alguma sorte, reflitam em seu inconsciente uma parte daquilo que nos moveu a buscar um meio de expressão pra começo de conversa. É como se todos vivêssemos dentro de quartos fechados (e essa analogia é emprestada do conto do DFW, já vou avisando), ligados a todos os demais quartos somente por buracos de fechadura. É muito pouco para transmitirmos o que se passa dentro de nosso quarto. Tentamos encontrar truques para descrever nossa estante de livros, o papel de parede que escolhemos, o modo como a lua cheia ilumina a cama em determinadas noites. Tocamos nosso som favorito no volume máximo, torcendo pra que alguém do outro lado da porta escute e goste também. Mas é sempre tão pouco. Então o negócio é aproveitar o buraquinho da fechadura da melhor maneira possível. Escrever é como sussurrar uma história pelo buraco. Um filme é como mostrar uma seqüência de imagens pelo buraco, e por aí vai. (Ok, agora estou desenvolvendo a analogia ao meu gosto, como já devem ter percebido). E raramente, muito raramente, bem na hora que a gente bota o olho no buraco, tem alguém espiando exatamente ali no mesmo instante. É claro que o quarto é ilusório. No fundo não existem paredes. Mas saber disso não ajuda muito, não é mesmo?

Arrisco dizer que escrever é a forma mais mentalmente extenuante de tentar transmitir nosso fluxo interior de pensamentos e impressões. As palavras são pecinhas muito pequenas, com regras de encaixe manhosas, chatinhas. Tentar transformar um clarão intuitivo em uma seqüência linear de palavras pode ser bem complicado. Mas é possível, e bons livros estão cheios de momentos “pára tudo”, porque um conjunto de páginas triunfante consegue transmitir algo da mesma forma que três segundos de alguns filmes ou algumas músicas. O poder ocasional de um olhar de um ator em um filme ou de um refrão de uma música às vezes me deixa em uma espécie de estado de graça, e buscar esse efeito em parágrafos e páginas às vezes me parece uma tarefa tão imensa que quase acredito, por um instante, que escrever é coisa de louco (não é).

É nesse sentido que o estilo prolixo e ultradescritivo e a atordoante variação lexical do DFW resultam em uma experiência de leitura única. Ele tenta transformar o mais pessoal monólogo interior e seus mecanismos subconscientes em frases, sem perder nada, sem elipses, sem atalhos. Transforma a epifania momentânea de um personagem em duas horas de leitura pausada. É como se ele quisesse que de fato tudo estivesse ali em palavras. É como montar um porta-aviões em tamanho real com pecinhas de Lego. E o que ele freqüentemente demonstra com isso é que a compreensão minuciosa do funcionamento de nossa mente, de nossas neuroses e de boa parte da filosofia séria que já foi transformada em senso comum em nossa época não muda muito nossa condição. A porta do quarto segue trancada.

[publicado em 26/10/2005 no finado blog Ranchocarne]





Livros

Cordilheira
Cordilheira
Romance. São Paulo: Companhia das Letras, 2008

Prêmio Machado de Assis de Romance 2008 (Fundação Biblioteca Nacional)

"A protagonista, Anita, mora em São Paulo. Escreve um livro que é publicado na Argentina, lugar onde tentará, a todo custo, ter o filho que não consegue com o namorado oficial, brasileiro. (...) A ausência de platitude tanto emocional quanto no cenário instaura um nervoso eletrocardiograma a disseminar uma cordilheira. Ela espalha sua figura assombrosa por todas as páginas, nos planos material e metafórico. A exuberância técnica de Galera nas descrições potencializa o texto. (...) Trata-se de um jogo (doloroso) de identidades e de uma angustiada busca de vínculos. Cordilheira prova que o livro anterior não foi apenas sorte de um escritor jovem."
(Paulo Bentancur, Revista Época)

"Pontuado por digressões engenhosas, e movido por constantes revisões de perspectiva que mantêm os julgamentos sempre em suspenso, o realismo detalhista de Galera empresta verossimilhança e dramaticidade à história, dando vigor às reflexões que servem de eixo para o enredo. Buenos Aires aparece mais nos bares e cafés do que nas avenidas monumentais, e as descrições desses espaços, ao mesmo tempo concisas e atentas a pequenas particularidades, atestam não apenas o talento evocativo de Galera, mas também sua capacidade de observação. (...) Ainda que seja um livro sobre a relação entre escritores e suas obras, “Cordilheira” explora de maneira mais ampla a idéia da vida cotidiana como uma narrativa, indicando ao mesmo tempo limites para a auto-invenção e o caráter às vezes irrisório da distinção entre o real e a ficção."
(Miguel Conde, O Globo)

"O livro tem a qualidade de apresentar uma voz feminina crível, delineada com sensibilidade. Está na figura de Anita a chave do que o romance tem de melhor, uma personalidade complexa, com desejos conflitantes e que refletem à perfeição um dos temas centrais da obra de Galera até agora, a falta de um sentido para uma geração jovem sem interesse em cumprir as expectativas alheias, algo que já se via em Até o Dia em que o Cão Morreu e em Mãos de Cavalo."
(Carlos André Moreira, Zero Hora)

"A comunidade de escritores fanáticos imaginada por Daniel Galera faz sentido mesmo para o leitor que desconheça essas piscadinhas de olhos eruditas. Trata-se, ainda uma vez, de meditar sobre os limites tênues entre a arte e o real. No caso, entre o que se escreve e a experiência vivida. Galera oferece uma torção adicional a essa problemática do escritor: como viver de acordo com aquilo que escrevemos e inventamos?"
(Luiz Zanin, O Estado de SP)

Mãos de Cavalo
Mãos de Cavalo
Romance. São Paulo: Companhia das Letras, 2006

"O romance parte de uma bem bolada configuração narrativa, na qual histórias aparentemente independentes correm paralelas, para, aos poucos, irem se imbricando: o Ciclista Urbano ganha velocidade na sua ´antiquada porém feroz Caloi Cross aro 20 com freio de pé´, um adolescente classe-média-baixa anda aos encontrões com os amigos (e a vida), um cirurgião plástico bem-sucedido planeja escalar um cerro boliviano. Tudo culmina em um não saber-se quem se é, uma sobreposição de identidades, acompanhada pela melancólica constatação de que jamais seremos alguém além de nós mesmos. (...) Galera (...) conduz o seu leitor por uma Porto Alegre próxima e distante, em que se percorre a nova perimetral, de Petrópolis até a Zona Sul. Mais ou menos como um road movie que não sai do lugar."
(Eduardo Veras, Zero Hora)

"Em hábil trama, a ecoar tensão emocional com frases curtas, incisivas e pouco adjetivadas, produzindo reverberações infinitas de uma mesma matriz, Galera monta o duelo de um homem com seu medo. É o medo que favorece as construções prismáticas, fazendo com que a obra avance à medida que se voltam páginas. A obra, na verdade, acontece recuando."
(Fabrício Carpinejar, O Estado de São Paulo)

"Dividindo a obra em duas partes que caminham simultaneamente, Galera entrelaça, com rara habilidade, a narrativa memorialística sobre um grupo de adolescentes de Porto Alegre (...) com o relato de um dia na vida de Hermano, um médico de sucesso. E tudo isso é conduzido por uma prosa marcadamente individual, que diferencia o autor como um dos melhores contadores de história da nova geração."
(Beatriz Resende, Revista Veja)

"Como é bem dito na orelha do livro, nenhum trecho da narrativa é gratuito. Uma simples partida de videogame mostra-se como uma profunda experiência de formação de personalidade. A experiência do protagonista de ter vivido tudo isso começa a lhe mostrar qual caminho trilhar, ou melhor, como trilhar esse caminho; o que ele pode jogar fora e excluir de sua vida, concentrando-se no difícil desafio que é compreender quem ele realmente é. Apesar do tom pouco otimista, é uma visão de quem olha em direção a uma felicidade bem mais ampla e sólida."
(Renato Parada, Samjaquimsatva)

"A arquitetura hábil do romance permite a Galera compor, com prodigiosa economia de meios e dosando secura e lirismo com a sabedoria de um veterano, uma emocionante história de crescimento."
(Sérgio Rodrigues, Todoprosa)


  Até o dia em que o cão morreu
1ª edição
Até o dia em que o cão morreu
2ª edição
 
Até o dia em que o cão morreu
Romance
1ª edição: Porto Alegre: Livros do Mal, 2003
2ª edição: São Paulo: Companhia das Letras, 2007

» Adaptado para o cinema por Beto Brant e Renato Ciasca (Cão sem dono, 2007)


"O que parecia uma história de amor se torna uma espécie de fábula sobre a decadência, como diz na orelha João Gilberto Noll: 'A história de um jovem que se exaure antes da maturidade, se exaure pela ociosidade massacrante, sem saída à vista, se exaure porque o amor lhe confere apenas soluços secos, gozos avulsos'. Quem sabe por isso emane do livro uma aura que lhe confere, desde já — e sem favor nenhum —, o status de clássico"
(Ronaldo Bressane, O Globo)

Até o dia em que o cão morreutrata do mundo insuficiente de um jovem, de sua amizade com o vira-latas Churras e de seu amor pela enigmática Marcela, uma moça que "parece não existir". É um livro simples, que deseja apenas morder um naco da vida, como se ela fosse uma suculenta peça de churrasco. Um romance escrito com desafetação e ímpeto, que representa bem a jovem literatura entre nós surgida na virada do século, adepta da linguagem ligeira da internet e dos blogs, e refém do impulso à confissão - ou falsa confissão. Mas, por vezes, como em Até o dia em que o cão morreu, acontece o inesperado: o escritor cria um personagem que o desmente. Um personagem que, indiferente à autoridade do autor, o ultrapassa e até mesmo o trai. Não penso nas intenções de Galera ao escrever seu livro que, é claro, desconheço. Mas, sim, no relato que li e em sua maneira franca de acessar o mundo, desenvoltura de que aqui e ali, no entanto, o próprio narrador nos induz a desconfiar.
(José Castello, O Globo)

É possível que [Galera] tenha captado como ninguém o espírito dessa geração que, aos olhos dos mais velhos, parece perdida e desejosa de prolongar indefinidamente a adolescência. Seja como for, Até o dia em que o cão morreu revela um escritor talentoso e cheio de personalidade, que tem no frescor da linguagem sua virtude mais evidente.
(José Geraldo Couto, Carta Capital)

"Seu texto escapa do desejo por estantes e púlpitos e foge, indomado, pra discutir a atualidade no que ela tem de mais prosaica e, por isso mesmo, importante. Assim, Até o dia em que o cão morreu tematiza o corpo, nesta sociedade que tenta obsessivamente controlá-lo, extinguir as doenças, 'equilibrar' os estados mentais, esterilizar as secreções. Uma sociedade que já incorporou as lições da eugenia, graças ao pavor de perceber o quanto o corpo foge dos controles que criamos."
(Eduardo Fernandes, Revista Fraude)

"Galera escreveu um livro otimista, evitando julgamentos e mensagens pretensamente edificantes. Contemporâneo sem cair na citação de bandas e produtos que aflige a literatura de muitos dos seus colegas de geração, Até o Dia em que o Cão Morreu é um exame sutil e muito bem feito das opções que são exigidas de pessoas de uma certa idade, quando integração e desistência são alternativas igualmente válidas."
(Rodolfo S. Filho, www.claque.com.br)

"Estou lendo, e admirando pra burro, o estilo de um garoto chamado Daniel Galera. O menino gaúcho tem apenas 23 anos e escreve como um velho endemoniado. Até o Dia em que o Cão Morreu, da editora Livros do Mal, merece uma visita. É escrita de cachorro grande."
(Carlos Castelo Branco, Revista Caros Amigos)


Dentes Guardados
Dentes Guardados
Contos. Porto Alegre: Livros do Mal, 2001
» Download gratuito de versão em PDF

» Adaptado para o teatro por Mário Bortolotto em 2002
» Conto "Intimidade" adaptado para curta-metragem 35mm
por Camila Gonzatto, 2003
» Conto "Manual para atropelar cachorros" adaptado para curta-metragem 35mm por Rafael Primo, 2005
» Conto "A escrava branca" adaptado para curta-metragem 35mm por Fabrício Bittar, com o título "Elise", 2007

"Um escritor estreante com consciência dos poderes subjetivos da literatura."
(Bernardo Carvalho, Folha de São Paulo)

"A começar pelo título, tirado de Hilda Hilst, Dentes guardados estabelece diálogos com a tradição literária, mas cada uma das 14 histórias é atravessada por referências ao cotidiano de jovens intelectualizados e saudavelmente insatisfeitos com a vida. Isso se manifesta, é claro, em situações, mas principalmente no bom ouvido de Galera para registrar o coloquial sem descuidar da forma. Seus personagens são facilmente reconhecíveis, mas não decalcam a vida: são, por tudo isso, solidamente literários. Em seus melhores momentos, Dentes guardados retoma, sem redundância, os conflitos da masculinidade na ressaca do 'liberou geral'. Já que pode tudo, o que realmente se quer?"
(Paulo Roberto Pires, Revista Época)







Edições estrangeiras

Argentina

Manos de Caballo
Manos de Caballo
Interzona, 2007


Itália

Sogni all'alba del ciclista urbano
Sogni all'alba del ciclista urbano
Mondadori, 2008

Manuale per investire i cani e altri racconti
Manuale per investire i cani e altri racconti
Arcana, 2004


Portugal

Sogni all'alba del ciclista urbano
Mãos de Cavalo
Caminho Editorial, 2008







Contos em antologias, revistas etc.

Revista E #102 [Conserta-se gaitas]
(São Paulo: SESC São Pauloi, novembro de 2005)

Sex'n'bossa. Antologia di narrativa erotica brasiliana [La schiava bianca],
Org. Patrizia di Malta
(Itália: Mondadori, 2005)

Contos de Bolso [Ela adorava dançar; Últimos tangos; Embutido]
(Porto Alegre: Casa Verde, 2005)

Os Cem Menores Contos Brasileiros do Século [miniconto sem título],
Org. Marcelino Freire
(São Paulo: Ateliê Editorial, 2004)

Revista Et Cetera n.2 [O Abraço]
(Curitiba: Travessa dos Editores, outubro de 2003)

Revista VOX [Razão para ir a um funeral]
(Porto Alegre: Corag, novembro de 2002)

Jornal Zero Hora - Caderno Cultura [O cubículo]
(Porto Alegre: RBS, 29 de junho de 2002)

Revista Eaí [Matias e a sacola]
(Porto Alegre: Plural, 21 de dezembro de 2001)

Contos de Oficina 24 [Natureza morta; Intimidade; Triângulo; A simples presença]
(Porto Alegre: WS, 2000)

Literatura Século XXI - vol. 2 [Beijo estalado], Org. Mônica Banderas e Whisner Fraga
(Rio de Janeiro: Blocos, 1999)







Sobre a beleza [On beauty], de Zadie Smith
(São Paulo: Companhia das Letras, 2007)

Reino do Medo [Kingdom of Fear], de Hunter S. Thompson
(São Paulo: Companhia das Letras, 2007)

Indecisão [Indecision], de Benjamin Kunkel
(Rio de Janeiro: Rocco, 2007)

Extremamente alto & incrivelmente perto [Extremely Loud & Incredibly Close], de Jonathan Safran Foer
(Rio de Janeiro: Rocco, 2006)

Pornô [Porno], de Irvine Welsh
(Rio de Janeiro: Rocco, 2006. Co-tradução com Daniel Pellizzari)

Minha Vida, de Robert Crumb
(São Paulo: Conrad, 2005. Quadrinhos)

Trainspotting [Trainspotting], de Irvine Welsh
(Rio de Janeiro: Rocco, 2005. Co-tradução com Daniel Pellizzari)

Nem os mais ferozes [No beast so fierce], de Edward Bunker
(São Paulo: Barracuda, 2004)

Blues, de Robert Crumb
(São Paulo: Conrad, 2004. Quadrinhos)

América, de Robert Crumb
(São Paulo: Conrad, 2004. Quadrinhos)

Contos de fadas [Fairy tales], de Michael Coleman
(São Paulo: Companhia das Letras, a publicar)

Lendas do Rei Artur [Arthurian Legends], de Margaret Simpson
(São Paulo: Companhia das Letras, 2004)

O blog de Bagdá [The Bagdah Blog], de Salam Pax
(São Paulo: Companhia das Letras, 2003)





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